Peças de uma chaleira elétrica alinhadas sobre bancada de madeira: o corpo, a resistência em espiral, o termostato e o cabo enrolado com plugue de três pinos redondos

Como calcular o consumo de um aparelho em kWh pela potência

A conta, e o único número que você precisa procurar

Mil watts ligados por uma hora dão 1,0 kWh. É essa a unidade que o seu relógio de luz registra e que a distribuidora cobra. O caminho do watt do aparelho até o kWh do mês já está pronto na calculadora de consumo em kWh, no fim desta página. Ela pede quatro coisas: potência, horas por dia, dias do ciclo e a tarifa da sua fatura.

A fórmula é a parte fácil do assunto. Todo site que responde a essa pergunta acerta ela.

O que praticamente ninguém acerta é qual watt entra ali. Contra as tabelas do PBE/INMETRO, os 200 W que os textos populares atribuem à geladeira frost free erram 5,1 vezes. No micro-ondas o risco é o inverso: a potência que aquece o prato é 1,85 vez menor que a da tomada.

E existe um terceiro erro, que não é de watt nenhum. No ar-condicionado a potência costuma estar certa, e o resultado ainda sai 6,3 vezes fora. O que quebra ali é a premissa de horas.

A fórmula nunca erra. O número que você põe nela é que erra.

Onde a potência do seu aparelho realmente está

São quatro lugares, e eles não declaram a mesma grandeza. Saber qual você está lendo importa mais do que achar qualquer número rápido.

Onde procurarO que está declarado aliO cuidado
Etiqueta colada na traseira ou na lateralTensão, corrente, potência nominal e o modeloAparelho bivolt traz uma linha por tensão. Ler a linha errada troca o número
Placa de identificação do fabricanteO código exato do modelo, que é o que a consulta do PBE pedeO nome comercial da caixa costuma cobrir vários modelos com consumos diferentes
Manual do fabricantePotência de operação, quase sempre com a condição de ensaio ao ladoPotência nominal e potência de operação convivem na mesma página, e só a segunda estima consumo
Tabela do PBE da categoria, no INMETROO que o modelo declarou no ensaio: consumo, eficiência e classeCada categoria declara uma grandeza diferente. Geladeira, por exemplo, não tem coluna de watts

Com o código do produto na mão, o caminho mais curto é o sistema de consulta do PBE, em pbe.inmetro.gov.br. Ele filtra por marca, modelo, capacidade e potência. As próprias tabelas avisam onde está a palavra final: “Essa tabela não substitui a lista de produtos registrados no Inmetro, publicada na página http://registro.inmetro.gov.br/consulta, sendo a autenticidade das informações aqui constantes de responsabilidade do fornecedor.”

Por que a potência da placa é o teto, e não o consumo

A potência da placa foi dimensionada para o pior instante de operação. Ela existe para escolher disjuntor e fiação, e é por isso que carrega margem.

O chuveiro elétrico é o exemplo mais limpo, porque a Lorenzetti explica o próprio número. As potências máximas usuais são “3200 W, 4500 W, 5500 W, 6800 W e 7500 W”. O valor da embalagem significa “a capacidade máxima de aquecimento do chuveiro elétrico”.

O que a tecla de temperatura faz com esse número. “Quando se muda a posição da tecla de temperatura do chuveiro, ele passa a operar em potências inferiores à sua potência máxima, fazendo com que a água esquente menos e também economizando energia elétrica.” Um 5500 W em posição de verão não consome 5500 W, e nada na embalagem diz quanto ele passa a consumir.

Para dimensionar a instalação, esses watts máximos são exatamente o número certo. Um chuveiro de 5500 W em 127 V pede fiação de 10 mm² e disjuntor de 50 A. Um de 7500 W em 220 V pede 6 mm² e disjuntor de 40 A. É a mesma potência servindo a dois propósitos que não se misturam: um é segurança elétrica, o outro é conta de luz.

O ar-condicionado leva essa confusão ao limite. Ele declara três potências diferentes para o mesmo produto, e só uma delas serve para estimar conta. Vale ler os três watts que um ar-condicionado de 9000 BTUs declara, e qual deles vai para a conta.

Micro-ondas: 1400 W na tomada, 759 W no prato

O forno de micro-ondas mostra o desvio na direção oposta. Aqui o PDF do PBE pede um cuidado: ele traz duas tabelas. A de 31/12/2024 ocupa as 13 primeiras páginas, e a de 31/12/2025 começa na página 14. Tudo o que vem abaixo sai só da segunda, a que está em vigor.

São 409 linhas, 402 delas com potência nominal declarada. O recorte de forno doméstico, até 45 litros, é meu e não da tabela: ela também lista fornos de 47 a 60 litros. Dentro do recorte ficam 369 linhas com potência declarada, e 367 têm a classe batendo com a eficiência. As outras duas trazem 5,4% e 5,6% de eficiência marcadas como classe A. A régua da própria tabela não permite isso, e elas ficam de fora.

IndicadorValor medianoOrigem
Potência nominal1400 W (p25 de 1250 W, p75 de 1450 W)Coluna da tabela do PBE
Eficiência energética54,2% (de 45,0% a 57,9%)Coluna da tabela do PBE
Potência que chega ao alimento759 WDerivado aqui: 1400 W x 54,2%
Consumo em modo espera0,01 kWh/dia (a coluna vai de 0 a 1,0)Coluna da tabela do PBE
Circuito exigido pelo Philco PMR28V15 A em 127 V, 10 A em 220 V, em tomada exclusivaManual do fabricante

Pouco mais da metade do que entra pela tomada vira calor no alimento. O resto aquece o magnetron, o ventilador e o prato giratório.

A exigência de circuito confirma qual dos dois números é o da tomada. Um aparelho que puxasse 759 W não precisaria de circuito exclusivo de 15 A em 127 V. Trocar um pelo outro na conta subestima cada minuto de forno em 1,85 vez, que é o inverso da eficiência mediana.

A classificação da etiqueta sai dessa mesma eficiência. Dentro das 367 linhas domésticas, a distribuição fica assim.

ClasseCritérioLinhas domésticas
Arendimento igual ou maior que 54%251 (68%)
Bde 49% a menos de 54%82 (22%)
Cabaixo de 49%34 (9%)

Os fornos acima de 45 litros, que o recorte deixou de fora, desenham outra coisa: das 33 linhas deles, 24 são classe C. É por isso que a contagem acima é do recorte doméstico, e não da tabela inteira.

O modo espera merece nota pelo motivo inverso. A mediana de 0,01 kWh/dia não muda fatura nenhuma. Só que a mesma coluna vai de 0 a 1,0, cem vezes a mediana no topo. Antes de decidir se vale desligar o seu da tomada, procure o número do seu modelo.

Uma última variável some da conta de quem multiplica watts por minutos. O manual do Philco PMR28V descreve cinco níveis de potência: 100%, 80%, 60%, 40% e 20% do máximo. Dez minutos descongelando em 20% e dez minutos aquecendo em 100% marcam o mesmo tempo no visor e não gastam a mesma energia.

Geladeira e inverter: o aparelho desliga sozinho e a fórmula não sabe

A geladeira quebra a fórmula de um jeito que nenhuma leitura de etiqueta resolve, e o INMETRO já assume isso na estrutura da tabela.

O que a tabela PBE de refrigeradores trazValor
Unidade em que o consumo é declaradokWh/mês, nas colunas “Consumo de Energia Mensal (kWh/mês)” e “Consumo Médio de Energia Mensal (kWh/mês)”
Coluna de potência elétrica em wattsNão existe
Recorte sob a etiqueta em vigor, o Padrão 2025235 linhas, 208 modelos de refrigerador-congelador frost free
Consumo mensal declarado16,4 a 46,0 kWh/mês, mediana de 28,0
Potência média equivalente23 W a 64 W, mediana de 38,9 W

Repare em qual coluna esses números foram buscados. A escala anterior, o Padrão 2022, valeu até 30/12/2025 e ainda aparece na mesma tabela, com outra mediana e outra faixa. Misturar as duas numa estatística só é somar réguas diferentes, e os números acima saem apenas da coluna em vigor.

A ausência da coluna de watts é a informação, não uma falha da tabela. Um aparelho que liga e desliga o compressor sozinho, o dia inteiro, não tem uma potência única que multiplique por horas.

O fabricante diz o mesmo. No guia rápido da Consul CRM50, a Whirlpool escreve: “O ventilador não fica ligado o tempo todo e sua potência varia conforme a necessidade.” O compressor trabalha assim também. Daí o consumo vir declarado em kWh/mês, já com os ciclos dentro.

Os 23 W a 64 W da última linha não estão na tabela do INMETRO: são o consumo mensal declarado convertido em potência média equivalente. Servem para comparar com o valor que circula por aí, e não para entrar em nenhuma multiplicação.

Quanto a conta ingênua erra, aparelho por aparelho

Esta é a tabela que faltava na primeira página do Google. De um lado, a conta feita com a potência que os textos populares mandam usar. Do outro, o que o fabricante declarou no ensaio do PBE, para o mesmo aparelho.

AparelhoPotência da conta ingênuaResultado dessa contaO que o ensaio declaraDesvio
Geladeira frost free200 W por 24 h, 30 dias144 kWh/mês28,0 kWh/mês, mediana de 235 linhas do Padrão 20255,1 vezes para cima
Micro-ondas doméstico759 W, se você usar a potência útilsubestima cada minuto de uso1400 W nominais na tomada1,85 vez para baixo
Chuveiro de 5500 W5500 Wvale com a tecla no máximo5500 W de capacidade máxima de aquecimentonenhum no máximo, para baixo nas outras posições
Split de 9000 BTUs800 W por 8 h/dia, 30 dias192 kWh/mês30,3 kWh/mês (364,0 kWh no ano, dividido por 12)6,3 vezes, e nenhuma delas vem do watt

Os 200 W da geladeira não são de fabricante nenhum. São a premissa que o blog da Aldo Solar e outros textos do tema usam. É ela que produz os 144 kWh/mês, mais de cinco vezes a mediana declarada.

A última linha é de outra natureza, e vale ler devagar. Os 800 W são a mediana da potência consumida a 35 °C em carga total. A tabela vigente traz 215 linhas coerentes de 9000 Btu/h Split Hi-Wall. São as que sobram depois de tirar quatro linhas cujo consumo anual não fecha com a própria potência declarada.

A potência está certa. O que não bate é o tempo em carga total. Oito horas por dia durante 30 dias descrevem um mês de verão cheio, e o número da etiqueta descreve um ano inteiro de ensaio. As duas contas medem coisas diferentes, e é o mesmo ponto de a faixa real de consumo de um 9000 BTUs pela tabela do INMETRO.

Por que o consumo do INMETRO não se multiplica por horas

A etiqueta do ar-condicionado resolve um problema e cria outro. Está escrito na página do programa: “A nova etiqueta calcula o consumo de energia do condicionador de ar no ano inteiro e leva em consideração o hábito de consumo do brasileiro ao longo do ano.”

O erro simétrico. O consumo anual declarado já contém o tempo de operação do ciclo de ensaio, com o hábito anual que a frase acima descreve. Quantas horas isso representa a tabela não publica, e este post não inventa. O que dá para afirmar é o efeito: multiplicar esse valor de novo pelas suas horas conta o mesmo tempo duas vezes.

O consumo anual da etiqueta serve para comparar modelos entre si. Para estimar o seu mês, com as suas horas, a entrada continua sendo a potência em watts.

A tarifa é a sua, não a de uma tabela

Nenhum R$/kWh vale para o Brasil inteiro. Em 03/09/2026 são 98 distribuidoras com tarifa B1 residencial convencional vigente. Entre a menor e a maior há 2,94 vezes de diferença. A contagem exclui o agente que a base da ANEEL registra como “Não Informado”, que é lacuna de cadastro e não distribuidora.

Referência em 03/09/2026Tarifa B1 residencialResolução e vigência
Menor do país, CODESAMR$ 0,53416/kWhREH 3.528, de 23/09/2025, vigente desde 01/01/2026
Mediana nacionalR$ 0,79765/kWhcalculada sobre as 98 distribuidoras
CPFL-PAULISTAR$ 0,73945/kWhREH 3.579, de 22/04/2026, vigente desde 08/04/2026
ENEL RJR$ 1,06110/kWhREH 3.570, de 10/03/2026, vigente desde 15/03/2026
Maior do país, CERESR$ 1,56923/kWhREH 1.454, de 28/04/2026, vigente desde 29/04/2026

Nenhum desses valores é o que você paga. A própria ANEEL avisa: “Esses valores não contemplam tributos e outros elementos que fazem parte de sua conta de luz, tais como ICMS, PIS/Pasep e Cofins, Taxa de Iluminação Pública e o adicional de Bandeira Tarifária.”

O rodapé desse mesmo ranking abre uma exceção de estado: “As tarifas das Permissionárias do estado do Rio de Janeiro já consideram, por força de legislação estadual específica, o efeito da substituição tributária do ICMS, não ocorrendo a aplicação de ICMS sobre o faturamento realizado pela Permissionária.” Se a sua energia vem de uma delas, o ICMS já está dentro do R$/kWh homologado.

A bandeira do mês entra por cima, por kWh consumido.

Bandeira, consultada em 03/09/2026Adicional por kWh
AmarelaR$ 0,01885
Vermelha, patamar 1R$ 0,04463
Vermelha, patamar 2R$ 0,07877

Esses adicionais saem da página de Bandeiras Tarifárias da ANEEL, atualizada em 08/01/2026. Qual bandeira está acionada muda a cada mês, e quem informa é a sua fatura.

Por isso a tarifa é campo aberto na calculadora, e não uma constante do site. O número que vale é o da sua fatura, com tributos e bandeira já dentro.

O roteiro, do aparelho até o número da fatura

  1. Pegue o código do modelo, na etiqueta traseira ou na placa de identificação. O nome da caixa não basta.
  2. Procure o modelo na tabela do PBE da categoria certa. Se ela declarar consumo em kWh/mês, como a de refrigeradores, a parte difícil acabou: falta só aplicar a tarifa da sua fatura sobre esse valor. Confira em qual coluna o seu modelo declara, porque a de refrigeradores traz duas réguas de ensaio lado a lado.
  3. Se a tabela declarar watts, pegue a potência de operação, não a nominal. No ar-condicionado, é a medida a 35 °C.
  4. Conte as horas de verdade. Aparelho que cicla sozinho, como geladeira e ar-condicionado inverter, não fica em carga total o tempo todo. E o micro-ondas em 20% de potência não é o mesmo micro-ondas de 100%.
  5. Se você veio pelo passo 3, leia a tarifa na sua conta, em R$/kWh. Depois jogue os quatro números na calculadora de consumo em kWh, aqui embaixo: watts, horas por dia, dias do seu ciclo e a tarifa.

Faça esse caminho primeiro no aparelho que fica mais tempo ligado na sua casa, não no que tem a maior potência estampada. É onde os dois números costumam se separar, e é onde a diferença aparece na fatura do mês que vem.

192 kWh por mês. Custo de R$ 153,15.

Tarifa preenchida como referência: R$ 0,79765 por kWh, mediana nacional da ANEEL em 03/09/2026. Troque pelo valor impresso na sua fatura, que já vem com tributos. Os adicionais de bandeira são os da ANEEL em vigor em agosto de 2026.

Fontes

  1. INMETRO, tabela PBE de Condicionadores de Ar, atualização de 31/12/2025 Consultado em
  2. INMETRO, página de Condicionadores de Ar do PBE Consultado em
  3. INMETRO, tabela PBE de Refrigeradores e Assemelhados, atualização de 31/12/2025 Consultado em
  4. INMETRO, tabela PBE de Fornos de Micro-ondas, atualização de 31/12/2025, páginas 14 a 23 do PDF Consultado em
  5. INMETRO, tabelas de eficiência energética do PBE Consultado em
  6. INMETRO, consulta aos produtos registrados Consultado em
  7. Manual de instruções unificado do micro-ondas Philco PMR28V, Britânia Eletrodomésticos Consultado em
  8. Lorenzetti, dúvidas frequentes de duchas e chuveiros elétricos Consultado em
  9. Whirlpool S.A., guia rápido da geladeira Consul CRM50, CRM53 e CRM56 Consultado em
  10. ANEEL, dados abertos, tarifas homologadas das distribuidoras Consultado em
  11. ANEEL, Ranking das Tarifas Consultado em
  12. ANEEL, Bandeiras Tarifárias Consultado em

Atualizado em .